Umbraculim – Jan Fabre no Instituto Tomie Ohtake

Caio Ryuichi Yossimi

Em sua exposição itinerante pela América do Sul, iniciada há dois anos no Chile chega ao Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, exibindo 19 obras de seus últimos 30 anos de trabalho, o artista belga Jan Fabre mostra sua fascinação por besouros, cérebros, fluidos corporais, besouros e animais mortos. Ele é um dos grandes nomes da arte contemporânea européia, não só nas artes visuais, mas no teatro também, sua ultima exposição no Brasil foi em 1991, na 21a Bienal de São Paulo.

A exposição ocupa toda a área expositiva do térreo do Instituto Tomie Ohtake, sendo assim o maior destaque dentre as outras exposições.

Ao descermos as escadas do saguão de entrada nos deparamos com algo que parece uma grande caixa de areia da qual encontramos em parquinhos de criança, no entanto dentro desta não há areia e muito menos crianças. Temos aqui cascas de árvore em pedaços preenchendo a caixa e sob estas, formas em bronze que parecem partes de armaduras, ferramentas e cabeças de formiga. Esta é a obra Sanguis/ Mantis Landscape. A obra parece representar um campo de batalha, onde pessoas meio humanas meio formigas batalharam, ou talvez uma luta entre pessoas e formigas. Ao lado desta vemos um vídeo experimento chamado The Problem”, onde ele e outro artista aparecerem rolando pedras gigantes.

Ao lado esquerdo do andar temos 4 salões. No primeiro reside uma instalação chamada de Umbraculim, a place in the shadow to think and work, a qual inspirou o nome da exposição. De primeira vista a instalação parece algo banal, temos formas humanas em tamanho real, cadeiras de rodas, andadores, muletas e dois motores, todos com texturas muito interessantes. Mas não se engane, algo que aprendi com esta exposição é que Jan Fabre e seu gosto pelo grotesco jamais produziria algo tão banal quanto uma obra com texturas “interessantes”. As cadeiras de rodas, andadores e muletas são cobertas de cascas de besouros verdes e as figuras humanas de fatias de ossos humanos.

Os segundo e terceiro salões abrigam duas instalações que dialogam entre si e chocam o público, caso a obra anterior já não tenho o feito. O segundo salão exibe a obra “The protestation of the dead alleycats”. Antes que alguém diga que esta é uma obra com gatinhos-zumbis carregaram placas e armas, pasmem, é uma instalação de gatos de verdade- mortos, empalhados. Este foram recolhidos das ruas depois de morrerem e empalhados como encontrados, o que aqui significa, em posições bastante fúnebres. São vários e estão espalhados pelo local, onde as paredes são pretas e a iluminação é focada nos gatos. Vemos também dois gatos pendurados em ganchos ao centro da sala.

O próximo salão contém a obra “Carnival of the dead street dogs”. Sim, é uma instalação de cachorros mortos, empalhados como foram encontrados. Mas esta possui uma aparência mais…festiva, se assim pode-se dizer, já que temos vários elementos de festa, artigos coloridos, línguas-de-sogra e até chapeuzinhos de festa na cabeça de alguns. É grotesco, irônico, mas reflete certa proximidade à festividade do “Dia de Los Muertos, onde a morte não é algo a se chorar, é uma festa, todos são expostos de forma bastante teatral.

As próximas salas exibem obras como desenhos, onde encontramos muitos desenhos de besouros e desenhos feitos com sangue e…esperma. Sim, esperma. Uma obra que chama atenção é uma escultura dele mesmo em tamanho real sentado em uma mesa com um microscópio, todos cobertos por tachinhas. Há também vídeos de experimentações dele, a primeira com ele e o artista Russo-Americano vestidos de besouros, o segundo é um documentário sobre cérebros, chamado “Is the brain the most sexy part of the body?”. Este acompanha a séries de esculturas de cérebros que os colocam em diversas situações como um cérebro com uma chaminé, outro com um boneco de si mesmo em cima dele segurando rédeas e o ultimo com cortes, sangrando. O último salão também contém a escultura de um crânio mordando um pássaro. Sim, o pássaro é de verdade e a caveira é feita da casca besouros.

As obras de Jan Fabre causam grande impacto, exprimem ironia, melancolia, felicidade, elas são muito orgânicas e criticas, mas acima de tudo grotescas, sendo isto positivo ou negativo, depende de quem as vê. Ele trabalha de forma muito metafórica, utiliza-se do grotesco para passar mensagens, e principalmente do besouro, que, como dito pelo artista, é usado para materializar a memória. Em termos de Freud o besouro é chamado de Wiederholungszwang, visto que ele se repete incessantemente. A proposta de Jan Fabre, portanto, é exteriorizar o que há de mais profundo e, consequentemente, mais grotesco, coisas que poucos mostram, mas todos tem.

por Caio Ryuichi Yossimi

Umbraculum – Jan Fabre. Instituto Tomie Ohtake (Av. Faria Lima, 201). Tel. (011) 2245-1900. 11h/20h (fecha segunda). Grátis. Até 10/10.

Links relacionados:

http://www.limonada-biz.com.br/noticias/noticia.asp?id=602

http://vilamundo.org.br/2010/08/instalacoes-desenhos-e-fotografias-do-belga-jan-fabre/

http://en.wikipedia.org/wiki/Jan_Fabre

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