“sobreVIVER” por Beatriz Gallo
Ao chegar ,na entrada para exposição, já nos deparamos com uma grande parede vermelha com o título da obra :“sobreVIVER”, o que já faz com que seus pensamentos voem. Enfim, atrás dessa mesma parede está a primeira ala da exposição, que é dividida em cinco partes
Antes de contar sobre a exposição devo dar uma breve introdução sobre a história do artista, pois é o que se estampa nas telas com muita intensidade. João de Quadros é paulistano de Barretos, que começou sua carreira no Brasil como autodidata; porém seu caminho o levou à cidade de Kassel, na Alemanha, onde ingressou na “Faculdade de Artes Plásticas de Kassel”, lá montou um ateliê onde deixava todos os seus quadros e telas. Até que um dia houve um incêndio proposital em 2006 por parte de desconhecidos, no qual a maioria de sua produção de 12 anos foi dilacerada pelas labaredas. Porém desse caos sobraram algumas pinturas, apesar de comprometidas por queimaduras e modificações de tinta por causa do calor, e telas em branco também chamuscadas. Foram essas as telas usadas para a exposição que visitei. Das telas brancas se fez arte nova, das telas já pintadas se refez a arte proposta anteriormente.
A primeira parte da exposição se chama “Hannah Arendt”, que é uma homenagem a essa escritora e testemunha do nazismo. As obras aqui expostas foram feitas sobre as telas brancas comprometidas pelo incêndio. As pinturas mostram insetos na cor preta e na tela há marcas vermelhas, feitas com uma tinta que também sobreviveu ao atentado. Não se explicita a técnica dessa série, mas percebe-se a tinta a óleo (vermelha) e algum outro tipo de tinta nos desenhos e escritas. Essas escritas, na tela, são geralmente o nome do inseto desenhado, como um legenda em tamanho grande na própria obra.
A segunda parte se chama “Fênix” e é aquela que melhor explica o nome da exposição. Nessa seção percebe-se uma certa revolta do autor, pois ele usa cores fortes e escuras, bastante tinta e traços pesados. Uma obra ressalta às outras aqui: é uma chamada PIROMANÍACO que foi feita em 1998, oito anos antes do incêndio. Ela difere das outras não apenas pelo tema, aqui desenvolvido com bastante clareza, mas também como pelas cores mais suaves.

A terceira parte se chama “Jogos de Armar”. É a seção em que o autor usa como suporte jornais do período nazista. Estes são revestidos de óxido de zinco (mesmo processo de preparação de uma tela normal) e a pintura de insetos e ofídios é feita com canetinha e guache. Essa sala é a que se difere de fato de todas as outras, que são abertas e brancas. Aqui as pinturas estão expostas sobre mesas que parecem de interrogatório, seja pela disposição de lâmpadas pendentes sobre elas, seja pela escuridão da sala (preta e vermelha). Além disso, a arquitetura da mesma dá a impressão de esmagamento, de solidão, de aflição, pois afunila no final.
A quarta parte é composta por duas séries: “Kassel Ateliê” e “Ateliê São Paulo”. Ambos são abordados de forma não convencional, pois o foco não são os instrumentos que o pintor utiliza, mas sim o espaço em si, usando a cidade como metáfora de um grande ateliê. Mostra aqui o espaço de trabalho sem a mítica e romantismo do mesmo. Na série Kassel, ele banaliza o cotidiano e mostra elementos banais como postes de iluminação, trilhos de trem e prédios do extinto deposito de grãos, onde se localizava seu ateliê. Na serie “Ateliê São Paulo” as cores são completamente contrastantes com a da série anteriormente citada, pois agora o plano de fundo é monocromático de cores intensas (como rosa choque ); aqui ele retrata o caos urbanos juntamente com herança colonial que temos.
A quinta e última parte se chama “Melancolia”. Após a perda de doze anos de trabalho e morando em São Paulo, o autor das obras se encontra em uma certa depressão que é bem estampada nessa série. As cores e os quadros em si dão a impressão de desolação. Usa frases de cartas que amigos lhe escreveram como “you left the continent without a word” estampadas nas telas.
Infelizmente não é permitido tirar fotos por medo de massificação. As obras não tem informação sobre método ou de suas dimensões, mas posso dizer com segurança, que com exceção da série “Jogos de Armar”, todas as telas tem dimensões de pelo menos 1m x 1.5m.
Dá-se a entender ao caminhar pela exposição, disposta cronologicamente, que o artista ainda está nessa fase de melancolia. Ele utilizou em quase todas as séries esse fator do incêndio, como recurso artístico, propondo assim uma superação de seu próprio trauma e demonstração de uma sensibilidade aguda, misturando o tema pesado e desumano da violência (vandalismo em seu ateliê e o nazismo) e seres da natureza.
EXPOSIÇÃO JOSÉ DE QUADROS “SOBRE VIVER”
SESC POMPEIA
Curadoria: Tereza de Arruda.
Rua Clélia, 93
De 07/10 a 19/12. Terça a sexta, das 10h às 21h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 20h.
Classificação indicativa: Livre
Local: Área de Convivência
Telefone para informações: (11) 3871-7700
Website: www.sescsp.org.br
Twitter: twitter.com/sescpompeia
Email: email@sescpompeia.org.br
